domingo, 31 de outubro de 2021

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Caminhei tanto, fui tão longe. Agora faço um trajeto pra dentro. Profundo, como nunca antes. É como se tivesse sido necessário toda a distância caminhada antes para ser possível ver o que hoje vejo. Talvez eu precisasse de mais calos para que essa travessia doesse menos. 

Em uma das imersões cheias de signos embaralhados eu vi algo como a casa do Kansas em preto e branco, e depois o reino de Oz todo em cores. 

O coração, a coragem, o cérebro, os desejos sempre foram juntos com quem buscava essas coisas, foram afloradas pelo caminho. Como se o destino pouco importasse. Importa o que se descobre no caminho. Mas ter um foco me fazia mais resiliente.

Não há lugar como o lar. E até hoje reverbero essa frase na mente. Kansas, meu Kansas. Esse é meu lar, é onde sinto que cheguei onde devo, onde há banho quente e descanso.

No entanto meu Kansas real era um inferno. O lugar de banho quente e descanso sempre foi minha mente, porque nunca houve lar fora dela. Sem a venda do romantismo nos olhos, o meu lugar de identificação é a guerra e a humilhação que eu tinha a obrigação de aguentar em nome de um reino de Oz. 

O que é descanso afinal? Onde de fato posso encostar a cabeça e ser eu mesma? Será que eu tenho a habilidade de construir meu Kansas? Novo lar, algo que nunca vi, sei que deve ser diferente do lar de hábito. 

A verdade que continua é que não há lugar como o lar…

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

a l o n e

 


sozinhos chegamos

sozinhos partiremos

sozinho estamos

salvo algumas exceções



terça-feira, 7 de setembro de 2021

Que país é este?

Ouvi dizer que era verde

Porque o verde se via de longe

Esplêndido, impávido, colosso.

Mas se encho meus pulmões de ar

sinto a fuligem e me afogo no cinza.


Disseram que o amarelo

Era de tanta riqueza e ouro

Mas o que é riqueza se o que vejo

É um preço alto a ser pago para ser miserável?


E o que somos afinal,

senão a parte mais misturada do mundo?

O novo mundo e esperança pra muitos

Solo lavado de sangue pra outros.

Achei que éramos um em ser plural.


E o que somos afinal?

Uma demarcação geográfica, ou muitas pessoas de muitas histórias?

Salve salve povo brasileiro

criativo por necessidade.

Saqueado, assassinado, roubado

Disseram que era um berço esplêndido

mas ainda vejo filhos dessa mãe gentil morrer de fome.


Pátria fadada ao fracasso... Brasil

quinta-feira, 8 de julho de 2021

we all born to die

 Eu sei que vou morrer. Sempre tive essa ideia e não é um problema.

Mas devo dizer, e arrisco dizer que você também, tem a sensação de ser imortal.

Porque eu sei que sou eu porque me sinto viva. Quando eu morrer não haverá mais eu pra sentir algo. Essa concepção é tão estranha que nem consigo explicar. 

Vivo tranquila sabendo que as pessoas que eu prezo estão vivendo e desenvolvendo por aí. Mas quando elas morrem, essa sensação estranha de o mundo ser, agora sem o ser daquela pessoa.

A entropia não me deixa tranquila. É a sensação mais forte sobre a falta de controle sobre si mesmo.

Isso me faz pensar No mundo de Sofia. Onde, na verdade, podemos ser só personagens na imaginação de alguém. Sendo assim, será que "sou" mesmo? Ou somos a mesma coisa? só uma ideia de alguém.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

the harvest

 Estou me sentindo no livro “ A menina que roubava livros”... na história contada pela morte.

Aqui não é exatamente uma guerra, mas caminhamos entre mortos que não podem ser velados. Quem não morre, mas foi atingido, precisa de um esforço extra pra se recuperar. 

E quem não foi atingido, ou está alienado, ou com um aperto no peito.

Respeito ao ceifador... mas sua presença engrossa meu ar. Me deixa sem ação, me faz questionar o valor da vida, a razão dela ou o que eu devo fazer amanhã... e isso não é exatamente bom ou ruim. 

O que eu vou fazer amanhã faz algum sentido diante de tudo isso? 

Mais cedo eu estava planejando gastos pro natal. Procurando decoração pra comemorar meu aniversário sozinha... de novo. Se formos pensar que hoje a vida está mais incerta do que estava há dois anos atrás, planos de longo prazo que antes era uma obrigação ter o trajeto já desenhado até 5 anos, hoje eu acho uma ousadia misturada a perda de tempo.

tempo... outra coisa bem estranha. teoricamente estamos com mais tempo, por outro lado, a sensação é que ele se esvai mais depressa, mais inútil, mais vago...



segunda-feira, 8 de março de 2021

grey

Eu já tive meu cabelo de todas as cores

todas mesmo

e nunca me pautei pela opinião dos outros, que não eram poucas não. Tive milhaaares de comentários não requisitados que estava mais bonito antes.

Aí cansei daquele over, voltei para as cores convencionais, no meu tempo, poque eu quis. Até voltar pro meu castanho escuro mesmo. 

Então começam as mechinhas prateadas a aparecerem.

Já não sou mais nenhuma criança, não é mesmo?!

Então comecei a pintar de castanho escuro.

Eis a guerra dentro de mim. Qual o sentido de pintar o cabelo da cor dele mesmo?

E sabemos, homem grisalho é charmoso, mulher grisalha é desleixada.

Sério? Eu desleixada? Já viram meu marido?

ah... ele pode né, porque feio mesmo é mulher que não anda dentro do padrão.


A gente vive batalhas diárias pra desfazer esse manto de microescamas que colocaram pra nos prender. 

Qual o significado de um cabelo branco? realmente?

- falta de melanina, certo, muito comum acontecer com o passar doas anos.


e se eu estou chegando à velhice é porque eu não morri- e isso é ótimo, eu acho....

nada a ver como o jugo do desleixo, que inclusive dizem que me torna incapaz de uma série de coisas.


Hoje em dia já se vê comerciais com mulheres mais velhas, expondo rugas mesmo, velhas mesmo, 60+, alguém permitiu que elas aparecessem. 


A mulher nasceu pra servir. Isso é a regra básica do machismo. Além disso precisamos procriar. Logo nossa vida útil vai dos 13 aos 45 anos, depois disso somos descartadas. Entendeu porque não podemos mostrar que envelhecemos? Porque stamos sujeitas ao descarte.


Agora vamos lá, que realidade mais miserável pra gente hein! Ahhh somos muito mais que procriar, muito além, muito depois, e é um cabelo branco que descreve nosso valor- ou falta dele?


Por favor, homens e mulheres, questionem mais, sempre haverá o que questionar, tem muita coisa errada, tem muita coisa sem sentido, muito coisa egoísta.


ass: a histérica 


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

For sale

 Tô a venda 

Sim, tô a venda porque perdi meu valor. 

E quão contraditório é isso! 

Estou num mundo que não há espaço pra mim

Eu não me encaixo mais aqui

E como faço pra fazer caber?

Me vendo!

Tenho tentado gostar do que eles gostam

Falar do que eles falam

Fazer o que eles fazem.

Mas definitivamente não sou eu. isso é só um ser vendido.

“Como a gente se perde entre o berço e o túmulo...”


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

i scream a little louder

 Todo final de ano faço textão de final de ano.

Já estamos no dia 4 e não rolou textão pelo simples fato de que ainda não digeri.

Deus sabe que eu estou puta com Ele, o que é bizarro, eu me coloco diante dEle enquanto serva, inferior, necessitada da misericórdia dEle grata por mais um dia de vida.

No entanto, eu não amo a vida com essa vivacidade que deveria. Porque eu não acredito em dias melhores, eu acredito na entropia. Eu queria dias melhores, mas daí a até que eles sejam uma realidade é uma outra história. Estar viva ao mesmo tempo que é uma grande benção é uma grande praga.

É a caixa de pandora, tá uma merda, mas pelo menos.... sabe "pelo menos"... Odeio essa vida "pelo menos"...

Quão fútil eu sou por querer mais? Material e espiritualmente? Mais.

É como minha compulsão por comida, eu gosto de comer até me sentir cheia, não satisfeita, quero além, que me sentir explodindo... e isso sim me dá prazer...

Quão animalesca eu sou por querer os extremos para me sentir bem. E o que é de fato se sentir bem, se nem quando é um bem sólido, ele não vai durar?

Vivo pagando preços, fazendo apostas, me desdobrando em gratidão por mais um dia, e a maldição do dia em que nasci.



Nesse momento escuto uma música ótima. Primeiro que a mulher que canta tem uma voz potente e rasgada. Exprime esse ódio/ força toda. E começa agradecendo as mazelas e depois diz: mordo mais forte, minha espada está mais afiada, rebato mais forte, grito mais alto.


Eu achava que a gente deveria, depois das mazelas da vida, nos tornar mais pacientes, calmos, senhores zen...

Mas se esse ano me ensinou algo, foi a abraçar meu demônio, me ensinou a de fato sentir e assumir meu ódio. E não fingir que sou zen e que ele não está aqui. Não estou falando de ser desequilibrada, mas o ódio tem uma energia forte, é propulsor, e me faz me sentir viva, assim como comer demais. Tem suas consequências? tem, mas o negócio de estar vivo é bem melhor saber do que sentir apenas letargia e ser uma morta viva esperando finalmente o dia de só deitar.