Onze da noite. ele lhe dá um beijo, deseja boa noite e deixa a casa da namorada. Ao dobrar a peimeira esquina, ele pega o telefone e procura um nome na agenda e liga.
-Oi! -Tudo bem? -Tá ocupada? -Mas posso passar aí? -Ok, me dá 20 minutos.
Então ele dirige até lá. Lá é onde se encontra nossa heroína, ou nossa vilã, você quem sabe.
Costumo pensar que não existem vilões, existem pontos de vista. Pelo menos é assim que eu enxergo o mundo real.
Ele realmente ama sua namorada, mas sem remorso ele vai ao encontro dela. Ele não sabe explicar, mas não gostaria de trocar uma pela outra, gosta assim, de ter as duas. Porque uma não é a outra, na verdade elas não têm nada a ver uma com a outra, e é disso que ele percisa. Não é culpa dele se ele nasceu numa sociedade monogâmica, ele apenas não se encaixa nessa situação.
Ele, ela e namorada precisam de nomes.
A namorada pode chamar Amélia, porque dizem essa ser mulher de verdade, uma coitada (adoro ese nome, ok, colocaria na minha filha, mas Amélia é Amélia), ele precisa de nome de cachorro, então Ricardo porque Ricardão é um clássico dos maridos cornos. E ela chamarei de Valentina, porque a posição dela é dureza.
Então voltando, Ricardo está indo ao encontro de Valentina, sem remorsos porque ele ama Amélia e precisa da energia da Valentina. Amélia se formou em Psicologia e faz pós na em Rorschach. Tem 25 anos e nunca trabalhou na vida. Mas tem um futuro promissor, afinal tem estudado muito pra isso. Não gosta de lugares movimentados, fala baixo, tem poucos amigos homens. A mulher perfeita.
Agora Valentina só fez uma faculdade, ainda não começou a pós. É que ela gastou muito tempo viajando pelo mundo, segundo ela era mais importante esses intercâmbios do que concluir uma faculdade. Mas enfim, ela concluiu, ela trabalha, ganha bem, bebe cerveja e tem muitos amigos homens. Uma lástima, mulher demais para um homem suportar, mas era inegável que Ricardo era muito mais vivo com Valentina do que com Amélia. Apesar de não saber se aceitaria viver com uma mulher como Valentina.
Ele chega ao bar onde está Valentina. Ela tem um copo de cerveja na mãe e está cantando a plenos pulmões Jailbreak com a banda que toca. Ricardo se empolga, já chega por tras beijando seu pescoço. Ela se irrta, mas não demonstra. Ela está acompanhanda de amigos e amigas e passam todos uma noite muito agradável e feliz.
Ricardo chega em casa realizado. No seu celular tem um sms da Amélia "Boa noite, te amo, bj."
Valentina chega em seu apartamento. Ao contrario do que pensam ela não é uma mulher sem coração e bem resolvida. Ok, pra uma mulher ela é bem resolvida, mas ela ainda tem coração. Ela tem um afeto muito grande por Ricardo, e por mais que ele diga que gosta muito dela, ela sabe que jamais será Amélia, ela sabe que ele não seria seu namorado. Mas ela precisa dele, do carinho dele, do sentimento de posse quando ele está perto.
Valentina tem plena consciência do que ela faz não está certo. Mas calculando todos os pesos e medindo todas as medidas a maior perdedora é ela. Valentina não pode mandar sms de bjo boa noite para Ricardo porque Amélia pode ver e se magoar, enquanto Amélia pode mandar para Ricardo e Valentina não terá sequer o direito de se magoar. Mas por dentro ela grita. Aos eventos sociais Valentina tem que ir sozinha, dependendo do lugar ela não pode levar Ricardo, em situações piores ela precisa cruzar com Ricardo de mãos dadas a Amélia. Por mais que os melhores momentos sejam os com Valentina, é pra Amélia que Ricardo sempre volta.
Amélia planeja seu casamento, faz mil planos, tem mil sonhos, uma porção de idealizações.
Ricardo se sente indo para a forca.
Ricando sente-se livre com Valentina.
Se Ricardo sente-se preso com Amélia e livre com Valentina porque ele simplesmente não troca? Bem, a conta não é tão simples. Imagine só um machão como Ricardo acordar todos os dias com uma mulher tão alfa quanto ele, talvez com um salário maior que o dele todos os dias! Os dias poderiam ser menos estressantes, mas o ego dele não suportaria.
Fora que machões, apesar não parecer, são muito tradicionais. Imagina! Casar com uma mulher que tem profissão de homem.
Amélia é muito ciumenta, acha que seu namorado sai demais. Quando casar ela acha que isso precisa acabar! Ele deve viver para a esposa!
Valentina acha que tem uma vida boa, queria sim, um amor só pra ela. Mas como seus amigos são todos casados, compromissados ou gays, ela aceita essa situação deprimente de dividir o babaca que ela gosta, não gosta de ser a outra, o peso é muito alto, a dor é muito grande, talvez nem compense as boas noites que passa com ele, mas é o que tem pra hoje.
Valentina pensa em começar um abaixo-assinado pelas redes sociais para aprovar a bigamia. São tempos difíceis para os sonhadores!
As amélias desaprovarão, as valentinas torcerão o nariz, porque elas queriam mesmo era ser Amélias, os Ricardões se empolgarão a princípio, mas depois perceberão que eles são tradicionais demais pra isso, é como admitir que eles têm prazer anal. Eu acho que é só uma questão de cultura.
E a Valentina continuará a viver assim, a menos que ela aprenda a bordar eignore toda sua experiência, ou não.
E assim cada um segue a seu modo, com suas dores, suas frustações e suas mentiras. Quem é bom, quem é mau? não sei, todo mundo acho que é tudo e fim.
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