A fumaça não poderia cobrir, nem a penumbra, nem a ponta de cigarro que queimou minha mão, muito menos essa água salobra que agora insiste em marejar minha visão. Era iminente, mas então era real, muito mais do que saber o que acontecia, eu podia ver o que eu sempre temi bem ali na minha frente, a um palmo dos meus olhos.
O que eu poderia ter feito? Fui eu quem assinei o contrato de perdedora, eu quem apostei em time de segunda divisão, eu quem quis dar crédito ao cavalo pangaré.
Me resta me embebedar no estrobo, nas luzes coloridas intinerantes e dançar como nunca, mas cadê minha alma para curtir comigo? Concluo que não sei fingir, sou ótima atriz mas apenas para o que cabe ser atriz, palcos e câmera, não ali, na minha vida real. Na minha decepção épica, não mostruosa, porque nunca me enganei, mas esperei. Tola.
no light no light
As luzes não me entorpeciam o suficiente, o álcool só pioraria tudo, então sei lá, andar de um lado pro outro, e chore então, quem sabe tudo vai embora assim.
A banda ruim ficaria muito pior e lá estavam os dois abraçadinhos bem na minha frente, como se eu não existisse, como se eu nunca tivesse sido alguém. Eu queria ser engolida pelo chão, evaporar-me, sofrer de amnésia. Mas não há meios... era real, era verdade, e era meu dever experimentar o amargo da ilusão que eu criei sozinha. Me afastei.
Aquele abraço era meu, aquele cafuné era meu, agora era tudo tão ordinário, tão vil, tão sem significado algum.
A banda ruim continuava tocar, os rostos familiares desapareceram e os dois ficavam cada vez mais nítidos, e quanto maior a dor, maior a possibilidade de tudo desprender de mim até eu não sentir mais nada. Por você e por ninguém mais.
Sobrepujou qualquer razão, qualquer conselho que eu sabia muito bem, eu sabia, pior de tudo é que eu sabia.
Os corredores são estreitos, o caminho é um só, não tem jeito você iria me ver, eu não vou te encarar, nem você irá. Especialmente você não irá. Possivelmente sem remorso, sem piedade, sem nada, você não tem coração ou consciência, só um pênis.
Esperei vocês passarem, fui logo atrás em direção a porta de saída. Rostos familiares já preocupados com meu sumiço, intrigados com meu olhar triste em dia de celebração. Peguei o telefone e chamei um táxi. Sim, era cedo, mas pra mim já era tarde. Encostei na grade e esperei. Olhei pra frente e lá continuavam vocês distribuindo sorrisos aos seus amigos em volta. Você olhou em minha direção, mas olhou através, e depois desapareceu. Desapareceu como sempre fez, mas agora com a solidez de que não voltará, com a solidez de que não existe mais espaço. Lamento, sem mais espaço pra você ou qualquer outro.
damaged...
O telefone toca, meu taxi chegou. Kiss kiss goodbye!
Cruzei o portão para sair e não intento voltar, não pretendo reviver lembranças, boas ou más. Encerro aqui esse capítulo.
Boa noite. Disse a moça da entrada. Soa sarcasmo, humor negro.
Entro no taxi e o motorista me pergunta pra onde vou. O ponto onde ele me pegou e onde me levaria fez um nó em sua garganta. Então ele me contou. Há 28 anos atrás ele amou muito uma mulher. Amiga dele, saíam, riam. Ele então, naquela rua onde estávamos, a pediu em casamento sem nunca ter beijado. Ela recusou, disse que queria viver antes, faculdade, carreira.
Um dia, há poucos meses atrás ela pediu um taxi em um aeroporto qualquer, e era ele quem estava dirigindo. Ele velho, com um filho de uma aventura qualquer. Ela gorda e amargurada por um homem qualquer.- Vamos sair de novo? claro. Ah... me arrependo de não ter aceito seu pedido naquela época, tudo seria tão diferente. Seria... mas não foi. O tempo passou, as coisas se perderam, o encanto, o amor, a capacidade de amar.
Obrigada, motorista, só estou chorando mais agora. É um recado? Uma mensagem do universo estranhamente conectado?
Chegamos finalmente à minha casa, no mesmo bairro em que ela mora. Imagino seu coração apertado, mas o meu também estava. Um aperto pro alívio...
Entrei bem quietinha em casa, escovei os dentes, tirei a maquiagem, entrei no meu quarto, e olhei no espelho só pra olhar nos olhos de quem não cansa de perder. É.. você é bem feinha mesmo, e chata, e medrosa, e vai morrer gorda e cheia de arrependimentos.
Pego o telefone, lembro que já é tarde, também não sei pra que amigo eu ligaria, os melhores conselhos são os meus mesmo, mas só queria um ombro agora, mais nada.
Apaguei a luz do abajur, agarrei meu travesseiro pra afogar meu último soluço.
Meu estômago, que sente mais que meu coração, passaria o domingo todo querendo vomitar a saudade e a decepção e tudo mais. Mas eu precisava dormir.
Terceira última vez... essa foi a última vez outra vez. Meu coração não é fígado, ele não se recompõe. Meu coração ataca meu fígado, só não leza meu cérebro.
Não quero mais me dar chances, meu cérebro sabe das coisas, aposte em times que ganham, não em novatos ditos promissores... sua experiência sabe o porquê, não banque a burra, você não é.
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